Por Eduardo Manzano
Durante a Movelsul, o arquiteto, designer e estrategista Eduardo Manzano conduziu uma palestra brilhante para uma plateia interessada e atenta, abordando os novos paradigmas que redefinem o mercado hoteleiro global, que temos a honra de compartilhar em nosso blog.
De acordo com Manzano, a arquitetura e o design de interiores voltados para o setor de hospitalidade enfrentam, hoje, um dos momentos mais dinâmicos de sua história. Longe de ser apenas uma resposta estética a demandas de mercado, projetar espaços de permanência e refúgio tornou-se um exercício profundo de curadoria material, responsabilidade ambiental e compreensão da experiência humana.
1. O momento presente e os dados de um mercado em transformação
O ponto de partida do debate trouxe à tona estatísticas cruciais da Organização Mundial do Turismo (OMT) e de institutos globais de pesquisa:
- 68% dos viajantes buscam ativamente experiências culturais autênticas nos destinos que visitam.
- Estão projetados US$ 1,4 trilhão em construções sustentáveis globalmente até o ano de 2026.
- 40% dos hotéis de luxo ao redor do mundo planejam digitalizar integralmente suas operações no curto prazo.
2. Arquitetura sustentável e o poder do retrofit
A sustentabilidade na hospitalidade contemporânea apoia-se em quatro pilares vitais:
-
Materiais bioclimáticos: Utilização estrutural de bambu, terra apisoada, adobe, materiais reciclados e madeira com certificação FSC.
-
Energia renovável: Implementação de painéis fotovoltaicos, geotermia, biomassa, iluminação LED e edifícios de conceito Net Zero.
-
Água e biodiversidade: Projetos com captação pluvial, telhados verdes, jardins verticais e reciclagem de águas cinzas.
-
Certificações internacionais: Validação de desempenho por selos de prestígio global como LEED, BREEAM, EDGE, SITES e LBC.
Nesse cenário, o foco no retrofit desponta como uma das estratégias de maior impacto ambiental. Optar por revitalizar uma estrutura existente em vez de erguer uma nova construção gera uma economia de até 80% na pegada de carbono do projeto. Trata-se de uma questão urgente, dado que os materiais de construção civil representam 11% das emissões globais de carbono — um índice cinco vezes maior do que o de todas as companhias aéreas reunidas. Como bem destacou Manzano, o mercado maduro compreendeu que a equação ESG + CAPEX + valorização do ativo + carbono evitado resulta em um excelente retorno financeiro.
A qualidade e a durabilidade do mobiliário fabricado, em especial a excelência reconhecida do mobiliário do Sul do Brasil, são elementos chaves para essa sustentabilidade. Um material de baixa durabilidade que falha em dois anos gera mais resíduos e custos operacionais adicionais. A precisão de engenharia e os rigorosos acabamentos dimensionais garantem que os sistemas modulares se encaixem perfeitamente, posicionando o produto nacional no mesmo patamar de concorrência com fornecedores premium europeus.
3. Tecnologia invisível e a digitalização no novo padrão
A revolução digital na arquitetura de hospitalidade não se resume a telas espalhadas pelos ambientes, mas sim a ferramentas integradas que potencializam a eficiência do projeto e a operação do empreendimento:
-
Design para desmontagem (DfD): Mobiliário modular planejado especificamente para facilitar o reparo, a remanufatura e a reutilização de componentes.
-
Mobiliário inteligente (IoT): Peças equipadas com sensores de ocupação, ajustes ergonômicos automáticos e personalização tanto nas suítes quanto nas áreas comuns.
-
IA generativa: Utilização de inteligência artificial assistida para calcular estruturas otimizadas em peso e resistência, gerando formatos orgânicos de altíssima complexidade técnica.
-
Realidade virtual e aumentada (VR/AR): Possibilidade de tours virtuais imersivos para investidores e clientes antes do início da obra física, além do auxílio à venda de mobiliário em escala real de forma remota.
-
Fabricação digital: Utilização de tecnologia CNC e impressão 3D com madeira e biopolímeros para peças finais de séries exclusivas.
4. Cinco tendências que redefinem a hospitalidade
Eduardo Manzano identificou cinco movimentos comportamentais fundamentais dos hóspedes de alto padrão hoteleiro, que alteram radicalmente o modo como os empreendimentos devem ser concebidos:
-
O planejamento com anos de antecedência: hóspedes de luxo reservam resorts e vilas exclusivas muito antes da data de embarque para assegurar unidades específicas. Essa antecipação estende o arco da experiência da viagem para bem antes do check-in e exige que cada suíte assinada tenha uma identidade verdadeiramente memorável.
-
A era do GLP-1 e a reconfiguração de A&B (Alimentos e Bebidas): o advento de medicamentos de emagrecimento alterou a relação do consumidor com a alimentação. A hospitalidade de luxo responde a isso com porções menores e funcionais, drinks artesanais sem álcool (mocktails) e salões planejados para celebrar a interação social e a experiência gastronômica, em vez da simples fartura.
-
Bem-estar 24 horas e hotelaria rural: o spa confinado ao subsolo deu lugar a uma atmosfera de relaxamento contínuo. O bem-estar agora está presente em banhos de som, sessões de respiração em horários diversos e no crescimento robusto (12% ao ano) de hotéis integrados a fazendas produtivas e estadias regenerativas.
-
Tecnologia invisível: a boa arquitetura utiliza a inteligência artificial para hiper personalizar as preferências do hóspede, mas oculta os sensores e telas do campo visual, proporcionando uma experiência acolhedora e de reconhecimento intuitivo.
-
"Slow luxury" de impacto mínimo: Destinos emergentes priorizam o alto valor cultural e geográfico com baixo impacto. A arquitetura foca em menos quartos e mais significado, utilizando materiais locais e respeitando as topografias originais.
A partir dessas diretrizes, seis modelos lideram o mercado hoteleiro global: os Eco-Lodges & Glampings, os Hotéis Patrimoniais restaurados, a Arquitetura voltada para Wellness, os Hotéis-Boutique de Design, a Experiência Aumentada digitalizada e os projetos de Turismo Regenerativo, que integram e beneficiam ativamente a comunidade local.
Casos de excelência mundial — como o Awasi Atacama (Chile), o Inkaterra Machu Picchu (Peru), os hotéis de design da marca Fasano e o carbono neutro Nayara Tented Camp (Costa Rica) — ilustram que os empreendimentos de sucesso alinham de forma indissociável a identidade única do território com a conservação e preservação ambiental.
5. O próximo ciclo do design e tendências globais
Com base no repertório extraído do renomado Salone del Mobile de Milão, Eduardo Manzano desenhou as grandes direções estéticas e de materiais para as próximas temporadas, ressaltando o valor do fazer manual aliado à precisão industrial:
-
Matéria e autenticidade acima da forma: o luxo contemporâneo celebra a imperfeição inerente das matérias-primas. Pedras são mantidas em estado bruto, e madeiras exibem seus veios naturais sem filtros químicos ou tratamentos que limitem sua essência, elevando o "inacabado" ao status de alta sofisticação.
-
Geometria orgânica estrutural: curvas fluidas deixam de ser simples adornos e passam a orientar de forma madura o design de mobiliários e ilhas arquitetônicas.
-
Minimalismo material e emocional: ambientes limpos visualmente, mas enriquecidos por composições de iluminação cênica e ricas texturas sensoriais, com alta flexibilidade baseada em modularidade.
-
Complexidade como contraponto: em oposição ao Shaker clássico, surge um espaço de destaque para marcenarias complexas, detalhes esculpidos e mecanismos intrincados de engenharia moveleira.
-
Estética "Sci-Fi" e sensorialidade: uso inovador de iluminação com linguagem futurista, comida como elemento de design e a introdução do som como uma peça escultórica nos ambientes.
-
Banho como refúgio: a sala de banho se estabelece definitivamente como um ambiente de desaceleração térmica e desaceleração mental (wellness doméstico), utilizando paletas neutras quentes com toques de terracota, vermelho, verde e azul.
-
Flexibilidade nos ambientes corporativos: o design de escritórios abandona definitivamente o conceito estático de posições fixas, organizando-se em torno de experiências integradas de bem-estar, adaptabilidade e sustentabilidade.
Ao encerrar sua apresentação na Movelsul, Eduardo Manzano sintetizou as teses centrais que servem de bússola para o mercado de hospitalidade e design de interiores:
-
Sustentabilidade é rentabilidade: projetos ecoeficientes de alto padrão asseguram menor custo operacional de manutenção, maior valor de revenda de ativos e facilidade na captação de fundos e investimentos internacionais.
-
A tecnologia é um habilitador: profissionais de arquitetura e design que adotarem primeiro ferramentas como IA, IoT e BIM em seus processos de criação liderarão o competitivo mercado latino-americano.
-
Vantagem competitiva da América Latina: nossa cultura expressiva, paisagens extraordinárias e autenticidade étnica e geográfica são recursos incomparáveis. O grande desafio ético é saber projetar para preservá-los.
-
O perfil do hóspede mudou: o consumidor contemporâneo de alto padrão prioriza conexões genuínas com o território, ricas experiências locais e propósitos conscientes de vida.
-
O momento de agir é agora: Com os mercados e investidores globais direcionando seus olhares para as potencialidades da América Latina, os desenvolvedores e marcas que projetarem com visão de futuro hoje estabelecerão os novos padrões de referência de amanhã.
Como brilhantemente asseverou o célebre poeta Octavio Paz, citado por Manzano para coroar o encerramento de sua palestra: "A arquitetura é a testemunha mais incorruptível da história". No futuro da hospitalidade que estamos desenhando hoje, cada detalhe materializado é uma assinatura de respeito ao tempo e de reverência ao viver.
Sobre Eduardo Manzano e a EMDA
Com mais de 35 anos de experiência internacional em arquitetura da hospitalidade, corporativa e planejamento urbano, Eduardo Manzano atua como arquiteto, designer e estrategista. Ao longo de sua consolidada trajetória, colaborou com grandes escritórios globais, como VOA Associates e Perkins+Will, liderando o desenvolvimento de projetos para marcas consagradas do setor hoteleiro mundial, incluindo Marriott, Hyatt, Starwood, Wyndham, Hilton, Campanile e Meliá [2].
Atualmente, além de sua prática profissional, Manzano ocupa o cargo de Vice-Presidente de Planejamento Urbano do Instituto Smart City Business America e atua fortemente na área acadêmica e institucional como professor, palestrante e curador. Sua filosofia de trabalho consiste em projetar soluções espaciais que integrem de forma inteligente a excelência estética, eficiência de negócios e o foco absoluto na experiência do usuário.
À frente do EMDA (EMDASTUDIO) como Diretor Executivo (CEO) e Diretor de Criação (CCO), Eduardo Manzano lidera uma estrutura consolidada por números expressivos: mais de 1.500.000 m² projetados, mais de 150 projetos de hospitalidade, mais de 17.000 quartos e mais de 30.000 hectares em masterplans desenvolvidos.
Guiada pelos pilares de sustentabilidade, inovação e experiência humana, a EMDA consolidou parcerias duradouras no mercado de luxo e alto padrão nacional e internacional. Suas expertises abrangem desde masterplans urbanos e incorporações residenciais até projetos institucionais e designs de interiores corporativos.
Entre seus casos de maior repercussão, destaca-se a emblemática revitalização do Hotel Nacional Rio. O desafio de realizar o retrofit de interiores e arquitetura de um dos maiores ícones da hotelaria carioca — projeto original do mestre Oscar Niemeyer — envolveu uma área de 80.000 m². Ao final do processo (2014–2016), a equipe EMDA entregou com maestria apartamentos, spa, área fitness, restaurantes, espaços de lazer e uma das operações hoteleiras mais complexas do país.
A sólida reputação da EMDA é validada por projetos expressivos que compõem seu portfólio de excelência, como o JW Marriott Copacabana, o Dream Hotel São Paulo, o Edifício Torre Paulista, o Motto by Hilton São Paulo, o Sanma Hotel Foz do Iguaçu, o Tribe Hotel Itaim e o Room Mate Faria.
