Por Rogério Gaspar
Arquiteto e Professor de Neuroarquitetura | Fundador da FGASPAR Arquitetura | Desenvolvedor do conceito Neuro Work-placemaking
Como a neuroarquitetura pode transformar mobiliário e ambiente em recursos para foco, interação, recuperação e pertencimento.
Durante muito tempo, projetar um escritório significou resolver uma equação predominantemente funcional: distribuir pessoas, dimensionar postos de trabalho, organizar setores, acomodar equipamentos e garantir condições adequadas para que as atividades acontecessem.
Tudo isso continua importante, mas já não é suficiente.
O trabalho mudou. As organizações mudaram. As pessoas mudaram. E, principalmente depois da consolidação dos modelos híbridos, o próprio motivo para estarmos juntos em um escritório passou a ser questionado.
Se parte significativa do trabalho pode acontecer em qualquer lugar, surge uma pergunta mais relevante para arquitetos, designers, empresas e indústria do mobiliário:
Que tipo de ambiente justifica estarmos juntos?
Talvez seja exatamente essa pergunta que esteja redesenhando o workplace contemporâneo.
O ambiente participa do que fazemos — mesmo quando não percebemos
Do ponto de vista da neuroarquitetura, o espaço não é um recipiente neutro onde o comportamento simplesmente acontece.
Luz, ruído, proximidade, movimento, temperatura, configuração do mobiliário, possibilidade de isolamento, campo visual, materialidade, escala e circulação produzem continuamente informações que precisam ser percebidas, interpretadas e processadas pelo nosso sistema nervoso.
Nem sempre temos consciência disso.
Enquanto alguém trabalha, seu cérebro não está processando apenas a tarefa que aparece na tela. Ele continua avaliando sons, movimentos periféricos, distâncias, aproximações, interrupções, exposição, possibilidades de fuga, privacidade e previsibilidade.
Por isso, duas pessoas podem ocupar a mesma sala e experimentar ambientes completamente diferentes.
Uma pode perceber energia e estímulo, e outra sobrecarga.
Uma pode perceber possibilidade de conexão, e outra exposição permanente.
Uma pode encontrar condições para se concentrar, outra pode gastar parte importante de seus recursos cognitivos simplesmente tentando ignorar o que acontece ao redor.

CORTEVA AGRISCIENCE – Foto: Mauricio Moreno
Um mesmo ambiente pode oferecer diferentes possibilidades de uso, interação e permanência. O desafio contemporâneo não é padronizar comportamentos, mas oferecer recursos para diferentes estados e necessidades.
As demandas invisíveis do ambiente de trabalho
No cotidiano das empresas, algumas demandas são facilmente reconhecidas: prazo, responsabilidade, produtividade, tomada de decisão, volume de trabalho.
Mas existem outras que dificilmente entram em uma planilha.
Ruído imprevisível, interrupções constantes, ausência de privacidade, excesso de informação visual, iluminação inadequada, temperatura desconfortável, circulação intensa, exposição social contínua.
Separadamente, essas condições podem parecer pequenas. O problema aparece quando o organismo precisa se adaptar a elas repetidamente, durante horas, dias e meses.
Segundo dados apresentados pela Organização Mundial da Saúde, 15% dos adultos em idade de trabalhar viviam com algum transtorno mental em 2019. Depressão e ansiedade estão associadas à perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano em escala global.
Seria equivocado atribuir esse cenário ao espaço físico. Mas seria igualmente equivocado supor que o ambiente não participa da sua construção.
O ambiente físico não é a única causa. Mas também não é inocente. Isso muda a pergunta de projeto.
Em vez de pensarmos apenas em quanto estímulo um escritório produz, deveríamos perguntar: quanto controle e possibilidade de recuperação esse ambiente oferece?
Foco também precisa de arquitetura
Poucas situações demonstram essa questão de maneira tão evidente quanto a necessidade de concentração.
Open spaces contribuíram para flexibilidade, integração e otimização de áreas, mas também evidenciaram um problema: proximidade física não significa necessariamente colaboração.
Quando todas as atividades acontecem no mesmo regime espacial, tarefas profundamente diferentes passam a disputar o mesmo ambiente.
Uma videoconferência, uma conversa rápida entre colegas, uma análise que exige concentração e uma reunião informal possuem exigências cognitivas distintas.
Projetá-las como se fossem equivalentes significa transferir para o usuário o esforço de adaptação. É nesse ponto que elementos arquitetônicos e mobiliários deixam de ser apenas objetos e passam a funcionar como recursos ambientais.
Uma cabine acústica, por exemplo, não deve ser compreendida somente como um elemento de isolamento. Em determinadas situações, ela oferece algo cognitivamente relevante: controle.
A pessoa pode sair temporariamente de um contexto com maior nível de interferência e acessar uma condição mais compatível com a tarefa que precisa realizar.

Cabine Oásis Bortolini – Design Sidinei Sbeghen
Espaços de maior privacidade acústica não representam isolamento social. Eles ampliam a possibilidade de escolha e permitem compatibilizar ambiente, tarefa e estado mental.
A linha Oásis, da Bortolini, materializa essa possibilidade ao introduzir diferentes escalas de privacidade dentro de layouts corporativos mais abertos.
O valor da solução, portanto, não está apenas no silêncio, está na possibilidade de escolha.
Do escritório que organiza pessoas ao escritório que organiza estados
A jornada de trabalho não exige um único estado mental.
Em poucas horas, uma mesma pessoa pode precisar chegar e se orientar, concentrar-se, conversar, apresentar uma ideia, colaborar, criar, tomar decisões, fazer uma pausa e depois recuperar novamente a atenção.
Chegada → foco → troca → criação → pausa → colaboração → recuperação.
Se nossos estados mudam ao longo do dia, por que tantos ambientes continuam oferecendo uma única resposta?
Essa talvez seja uma das transformações mais importantes do workplace contemporâneo. O projeto deixa de perguntar apenas:
Quantas pessoas precisamos acomodar?
E começa a perguntar:
Que estados precisamos apoiar?
Isso altera profundamente o papel do mobiliário.
Uma estação de trabalho responde a determinada condição. Uma mesa de reunião responde a outra. Um sofá modular pode favorecer aproximações menos formais. Uma cabine pode oferecer privacidade. Uma bancada pode permitir encontros rápidos. Uma poltrona ou uma área de menor ativação pode favorecer pausa ou recuperação.
Nenhum desses elementos produz determinado comportamento automaticamente. Mas eles podem aumentar ou reduzir as possibilidades para que determinados comportamentos aconteçam. Essa distinção é fundamental.
Flexibilidade não significa apenas mudar o layout
Um dos conceitos mais recorrentes nos escritórios contemporâneos é a flexibilidade.
Normalmente associamos a palavra à capacidade de deslocar, recombinar ou reconfigurar mobiliário. Mas existe outra dimensão igualmente importante: a flexibilidade comportamental.
Um bom ambiente deve permitir que pessoas diferentes encontrem condições distintas para realizar suas atividades.
Algumas pessoas buscam maior estimulação. Outras são mais sensíveis a ruídos, movimento ou proximidade. Algumas raciocinam melhor conversando. Outras precisam se retirar momentaneamente para organizar o pensamento.
Não existe, portanto, um nível universalmente ideal de estimulação.
O ambiente neurocompatível não é aquele sem estímulos.É aquele que não obriga todas as pessoas a processá-los da mesma maneira.
É por isso que modularidade, diversidade de tipologias e possibilidade de escolha assumem um papel maior do que simplesmente permitir futuras alterações de layout.
Elas ampliam o repertório de respostas do ambiente.

Coleção Ritma Bortolini - Design Sidinei Sbeghen
Modularidade pode ser compreendida para além da flexibilidade física: diferentes configurações permitem que o ambiente acompanhe diferentes ritmos, atividades e formas de interação.
A coleção Ritma, por exemplo, expressa essa mudança ao combinar modularidade, diferentes possibilidades de configuração, formas orgânicas e integração de elementos naturais.
Nesse contexto, o mobiliário deixa de responder apenas à ocupação. Passa a contribuir para a construção de diferentes experiências ao longo do dia.
Colaboração não nasce de uma mesa de reunião
Existe outro equívoco recorrente no desenho dos escritórios: acreditar que criar um espaço colaborativo produzirá, automaticamente, colaboração.
Não produzirá.
Nenhum sofá gera pertencimento, nenhuma mesa cria confiança, nenhuma área de convivência produz cultura organizacional apenas por existir.
O espaço pode aproximar corpos. Mas relações dependem de segurança, reciprocidade, cultura, liderança e propósito compartilhado.
Isso não reduz a importância do ambiente. Ao contrário.
Significa compreender com maior precisão aquilo que o projeto pode fazer.
Arquitetura e mobiliário podem criar condições mais favoráveis ao encontro: distâncias adequadas, diferentes graus de aproximação, configurações menos hierárquicas, territórios de permanência, zonas de transição e oportunidades para interações espontâneas.

Linha Near – Design Marta Manente
O mobiliário não cria vínculos, mas pode configurar distâncias, posições e possibilidades de encontro que favorecem a interação.
Soluções como Near e Otium tornam particularmente visível essa relação entre forma, proximidade e interação.
Não se trata de desenhar o vínculo.
“O vínculo não é desenhado. As condições para que ele aconteça, sim.”
Do workplace à ideia de Neuro Work-placemaking
É a partir dessa visão que venho desenvolvendo o conceito de Neuro Work-placemaking.
Trata-se de uma abordagem que aproxima neurociência, workplace design e placemaking para pensar o ambiente de trabalho não apenas como infraestrutura física, mas como um sistema capaz de oferecer recursos para experiências cognitivas, afetivas e relacionais.
Sua arquitetura conceitual se apoia em cinco dimensões interdependentes:
Neurocompatibilidade: buscar maior compatibilidade entre tarefa, estímulo ambiental e diferentes formas de processamento.
Afetividade e pertencimento: permitir reconhecimento, apropriação, memória e construção de identidade compartilhada.
Estimulação sensorial equilibrada: não eliminar estímulos, mas torná-los mais compreensíveis, graduáveis e, quando possível, controláveis.
Fluxo cognitivo-emocional: criar respostas espaciais para os diferentes estados que atravessamos ao longo do dia.
Interação social neuroinclusiva: permitir conexão sem eliminar escolha, distância, privacidade e possibilidade de retorno.
A mudança pode parecer conceitual, mas possui consequências extremamente práticas. Em vez de começar o projeto pelo objeto disponível, começamos pela experiência necessária.
Quatro perguntas ajudam inverter essa lógica:
Que tarefas acontecem aqui?
Que estados essas tarefas exigem?
Que interferências dificultam esses estados?
Que recursos ambientais podem apoiá-los?
Somente depois disso deveríamos perguntar qual mesa, sofá, cadeira, cabine ou configuração espacial responde melhor essa necessidade.
O mobiliário como interface entre pessoa, tarefa e ambiente
Essa forma de pensar abre também uma nova perspectiva para a indústria do mobiliário corporativo.
O produto deixa de ser avaliado apenas como objeto isolado. Passa a ser compreendido por aquilo que permite quando integrado ao sistema espacial.
Uma mesa pode favorecer aproximação ou distanciamento.
Um encosto pode alterar percepção de exposição.
Uma configuração modular pode permitir diferentes graus de sociabilidade.
Um elemento acústico pode diminuir interferências.
Um sistema ajustável pode aumentar autonomia.
Uma composição pode facilitar orientação, reconhecer territórios ou criar transições entre diferentes intensidades de uso.
O verdadeiro valor passa, portanto, da forma isolada para a relação entre forma, pessoa, atividade e contexto.
É nesse ponto que arquitetura, neurociência e design de mobiliário começam a compartilhar uma mesma agenda.
O escritório precisa justificar o encontro
O trabalho híbrido não eliminou o escritório.Ele tornou mais explícita a necessidade de justificá-lo. Durante décadas, estávamos no escritório porque aquele era o lugar onde o trabalho acontecia.
Agora, quando determinadas atividades podem ser realizadas em diferentes lugares, a presença passa a precisar oferecer algo que não encontramos com a mesma qualidade em qualquer lugar.
Troca.
Aprendizado.
Confiança.
Criação.
Pertencimento.
Coordenação.
Encontro.
O desafio dos próximos anos talvez não seja, portanto, convencer as pessoas a voltarem aos escritórios.
Será projetar ambientes aos quais faça sentido voltar.
Ambientes capazes de apoiar produtividade sem produzir sobrecarga permanente, que permitam interação sem eliminar privacidade.
Oferecer estímulos sem transformar cada minuto em espetáculo, acolher diferenças em vez de exigir adaptação contínua a um único padrão.
Compreender algo aparentemente simples, mas profundamente estratégico:o escritório não é cenário.
Ele participa da maneira como percebemos, pensamos, nos aproximamos, nos afastamos, trabalhamos e construímos relações.
Se o trabalho pode acontecer em qualquer lugar, talvez a pergunta para o próximo projeto não seja apenas quantas pessoas o espaço deverá receber. A pergunta é outra:
Que estados, experiências e relações farão valer a pena estarmos juntos?
Sobre o autor
Rogério Gaspar é arquiteto, professor de Neuroarquitetura e fundador da FGASPAR Arquitetura. Membro da Academy of Neuroscience for Architecture (ANFA), atua na convergência entre arquitetura, comportamento e estratégia, sendo desenvolvedor do conceito Neuro Work-placemaking.
